O que o Rosário de Frei Gilson, Dom Adair e a Cruz Amazônica têm em comum?
“Ele se fez obediente até a morte, e morte de cruz; corrigindo aquela desobediência que ocorreu por causa de uma árvore, pela obediência que foi consumada na árvore da cruz.” — Santo Irineu de Lião, Adversus Haereses, Livro V, capítulo 16, §3
À primeira vista, as pessoas e coisas citadas no título podem parecer tão semelhantes quanto um Golden Retriever, um Pastor alemão e uma raposa. Três caninos, dois até da mesma espécie, mas com características altamente diferentes.
De um lado a Quaresma de Frei Gilson, junto à quaresma de São Miguel, move milhões à penitência e oração durante o “tempo favorável” da Igreja, mas sofre críticas constantes de sacerdotes e leigos simpáticos à controversa “teologia da libertação”.
Do outro, a Cruz Amazônica, feita com madeira remanescente de queimadas na Amazônia, e usada em um encontro eclesial ligado ao Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), conhecido por sua grande simpatia à mesma Teologia da Libertação.
Por fim, Dom Adair, um bispo que, após uma oração pública contra o comunismo, sofreu críticas de clérigos simpáticos à polêmica escola teológica.
Apesar das figuras e situações citadas parecerem muito diferentes, todas elas tocam, cada uma a seu modo e em diferentes proporções, nas mesmas tentações: a redução da fé a bandeiras ideológicas, a perda do centro cristológico e o juízo temerário. (esse, diga-se de passagem, um dos pecados favoritos do discurso público brasileiro).
Para compreender, iniciemos com o caso da Cruz Amazônica.
A Cruz Amazônica e a temida Teologia da Libertação
Entre os dias 17 e 20 de agosto de 2025, aconteceu o Encontro de Bispos da Pan-Amazônia, em Bogotá, na sede do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM), organismo frequentemente associado à já referida Teologia da Libertação.
Para nossos propósitos, basta saber que, para celebrar o encontro, foram produzidas 130 cruzes (um número que, por si só, carrega grande carga simbólica), feitas em forma de árvore, com madeira retirada de regiões devastadas por queimadas.
As peças foram feitas por José Dorado, de San Miguel de Velasco, artesão que produz arte sacra entalhada em madeira, tradição que chegou à região por meio das missões jesuíticas dos séculos XVII e XVIII. Entre as peças mais populares produzidas por artesãos como ele estão, por exemplo, os anjos chiquitanos.



Isso, por si só, demonstra que, antes de a cruz ser encomendada, já havia na região a tradição da arte sacra católica entalhada em madeira, e que a peça em questão não surgiu do nada nem veio de fonte alheia à Igreja, mas de tradição católica pré-existente.
A peça não é, como disseram alguns, uma “árvore crucificada”, mas sim uma cruz em forma de árvore. Basta ver como se mesclam as folhas e as raízes à cruz.

Segundo texto no site da CEAMA, traduzido pelo Vatican News, ela representaria, para os bispos, a dor da terra ferida e, ao mesmo tempo, a esperança de que, do sofrimento, possa renascer a vida.
Aqui, aos mais desconfiados, uma coisa deve ter saltado aos olhos: no cristianismo, o “sofrimento da terra” não é redentor e não gera vida, portanto poderia haver nesse discurso um desvio do foco de Cristo para a terra.
Há, porém, um detalhe crucial e redentor desse símbolo de redenção, que escapa aos olhos e corações dos críticos mais desconfiados e que ficará claro quando examinarmos o simbolismo da cruz enquanto árvore da vida, de Cristo como videira, e da terra como um todo nas Sagradas Escrituras.
Nesse exame, talvez não se salve o significado dado pelos bispos, mas com certeza se salvará o símbolo por eles encomendado.
A Cruz enquanto árvore da vida
A tradição cristã lê, desde muito cedo, a relação entre a madeira do pecado (Gn 3) e a madeira da salvação (a Cruz).
Para além de Santo Irineu de Lião, Fortunato canta a Cruz como a “mais nobre árvore” (inter omnes arbor una nobilis). Em imagens e sermões, o grão que “morre” para dar fruto (Jo 12,24) torna-se figura da morte e ressurreição do Senhor: da Cruz, árvore frutífera, brotam frutos de vida eterna.
O exemplo iconográfico mais antigo desse tipo de representação data do século VIII, na Inglaterra e na Escócia: as chamadas cruzes de Ruthwell, talhadas em pedra. Elas contêm ramos de videira no entorno, episódios bíblicos gravados em sua face, e um sol ou triângulo na interseção entre os eixos horizontal e vertical, junto à gravação rúnica de um poema chamado “Dream of the Rood”, que retrata a cruz como árvore.



Posteriormente, no século XII, o mosaico do ábside de San Clemente (Roma) mostra a videira que brota aos pés da cruz e enche o espaço com vida — uma leitura visual do Paraíso e do rio da vida (Ap 22).


Depois, inspiradas no Lignum Vitae de São Boaventura, apareceram diversas representações da Cruz como árvore que dá a vida por toda a Europa, como a Árvore da Vida de Pacino di Bonaguida.

As imagens são claras e apresentam uma analogia entre a morte e ressurreição de Nosso Senhor — e a vida que Ele transmite aos seus discípulos e apóstolos — e o processo de germinação e crescimento das árvores frutíferas que inicia-se com a morte da semente e culmina na geração de frutos (que contêm em si a semente para germinar novas árvores).
Cristo, videira verdadeira; Maria, “hortus conclusus”
“Eu sou a videira verdadeira; vós sois os ramos” (Jo 15,1–5).
A iconografia medieval explorou essa autodefinição — muitas vezes envolvendo não só a cruz, como o próprio Cristo, em videiras ou ramificando a vida de Cristo em “frutos”, ora com episódios da revelação, ora com os próprios apóstolos, por meio dos quais a revelação foi transmitida.
E essa árvore frutífera, que é Cristo, não veio à Terra de forma aleatória; foi, na verdade, plantada em local muito específico…
A Terra e a Virgem
No Gênesis, a terra é, a princípio, sem forma e envolta em trevas: um abismo aquoso que tem sua sustentação no Espírito de Deus.
O Deus que criou e sustenta essa terra informe posteriormente lhe dá forma (note que a forma vem de Deus, do alto). Mas, mesmo formada, a terra não dá fruto, porque ainda não há o homem que a cultive.
Então, Deus também forma o homem, e o homem, com a ajuda da água que vem dos céus — que hidrata e dá vida à terra —, a cultiva.
Note que a terra, sem o que vem dos céus, não pode ter forma; e, tendo forma, sem a água do alto e sem o cultivo do homem, não pode dar vida. Ela é eminentemente passiva e só se move quando algo a move.
Curiosamente, o homem primordial cultiva a terra e a ordena segundo os princípios que recebe do alto, de Deus. Nesse sentido, o homem está para Deus assim como a terra está para ele.
O homem é aqui ativo em relação à terra e passivo, receptivo, em relação a Deus. Esse Deus, da costela do primeiro homem, tira a mulher, que é sua digna auxiliar, carne da sua carne.
Assim como o homem vem de Deus, a mulher é tirada por Deus, do homem.
Enquanto auxiliar, ela age em relação à terra segundo o propósito do homem, portanto segundo o que o homem recebe do próprio Deus. Também o próprio ventre da mulher também gera frutos segundo a semente plantada pelo homem.
Há aqui uma relação entre o homem e a mulher análoga à que a terra tem em relação ao homem e aos céus.
A danação da humanidade se inicia quando a mulher recebe da serpente uma orientação diversa daquela que recebeu de Deus, que é acatada pelo primeiro homem que a transmite a seus descendentes como cabeça da humanidade.
Essa orientação é como semente que cai no coração, cria raízes pela soberba e gera uma maldita árvore de desconfiança e suspeita de Deus, cujo fruto é um ato concreto de rebeldia contra Ele.
Esse fruto é oposto fruto da árvore da vida que também existia no mesmo jardim. Em certo sentido, pode-se dizer que uma árvore do conhecimento do bem e do mal é plantada e passa a existir na própria Eva, tanto quanto existe no jardim do paraíso terrestre.
Se encararmos a árvore também como símbolo da criação (em que as raízes representam os princípios, e os galhos e ramos seus desdobramentos), é possível dizer que, ao criar e dar a vida ao homem no Paraíso Terrestre, Deus constitui no próprio homem uma “árvore da vida”, que dá frutos de vida eterna ao fim da vinda terrestre em comunhão com Deus.
Quando o homem decide, partindo dessa vida dada por Deus e movido pela soberba, rebelar-se contra Ele, essa mesma “árvore interior” torna-se semelhante à árvore do conhecimento do bem e do mal e dá, como fruto do pecado que jaz em sua raiz, a morte. Não à toa, alguns autores patrísticos interpretam as duas árvores do paraíso como sendo uma só, ou aspectos diferentes de uma mesma árvore.
Como antídoto a essa rebeldia, Deus cultiva na terra um povo; e do cultivo desse povo, que recebe do alto a Lei e a Fé — assim como a terra recebe dos céus a água —, nasce a Santa Virgem.
E a Santa Virgem recebe em seu íntimo o Espírito de Deus, aquele mesmo que pairava sobre as águas abissais e deu forma à terra; por Ele, em seu ventre nasce, como pequena muda da árvore da salvação, o Cristo, nosso Senhor e Redentor.
Maria não é aqui somente a nova Eva; é também o novo jardim do qual nasce a árvore da vida, que é Cristo. Ou, como diz Santo Ambrósio em referência ao Cântico dos cânticos:
“Maria virgo est, hortus ille conclusus, cuius horti flos est Christus”, ou seja: “Maria é virgem, aquele jardim fechado, cuja flor é Cristo.”
Curiosamente, é dito que, no mesmo ato de sacrifício que leva à paixão e morte de Nosso Senhor, uma espada atravessará o coração de Maria, o jardim fechado do Senhor. Nesse sentido, Maria é vista simbolicamente também como a terra que sofre. E, no ato da crucifixão de Cristo, a terra também estremeceu, e a criação “gemeu como em dores de parto” (Rm 8,22).
Com tudo isso em mente, esculpir uma cruz a partir de madeira destruída por conta de uma desordem humana é um ato simbólico que remete à própria renovação gerada pelo sacrifício de Cristo e faz, simultaneamente, alusões à cruz como árvore da vida, aos sofrimentos da criação e de Maria.
E, havendo esse significado tão profundo embutido necessariamente na Cruz Amazônica — calcada na tradição bimilenar da Igreja —, por que ela é vista com tanta desconfiança?
Quando a fé é esvaziada por agendas políticas
A resposta está em duas coisas: a mais obvia é o significado no mínimo ambíguo dado pelos bispos, e a segunda é a percepção de conduta do clero ligado ao CELAM e às iniciativas socioambientais amazônicas.
Clodovis Boff, ex-adepto da Teologia da Libertação, recentemente, em carta aberta ao CELAM, criticou o que percebe como um escanteamento de Cristo e da fé em prol do trabalho social; e o próprio Papa Leão XIV, recentemente, admoestou os bispos latino-americanos a trazer Cristo ao centro de seu discurso e de suas preocupações.
Existem inúmeros bispos e padres que passaram os últimos anos na Amazônia em missão, e inúmeros eventos como esses foram realizados. Mas quantos indígenas foram batizados? Quando foi a última vez que a preocupação com a salvação de suas almas foi assunto central em algum desses encontros? E como essa postura afeta a percepção de setores mais “conservadores” da Igreja?
A tragédia aqui é que a desconfiança causada pelo que parece ser um mau comportamento dessa porção do clero não só causa escândalo e indignação, como faz com que o escândalo e a indignação criem raízes nos corações da porção mais “conservadora” da Igreja (como criou a semente de soberba no coração de Eva), tornando-a naturalmente mais sensível não só à mera menção ao componente social da caridade, mas também a símbolos como a Cruz Amazônica.
Junte a isso às leituras “espirituais de foco material” comuns a essa porção do clero, e a desconfiança se torna ainda pior.
Se, em virtude da desconfiança em relação ao clero da libertação, essa parcela da Igreja é capaz de tratar como herético um símbolo tradicional, corre-se o risco de o conteúdo simbolicamente associado a ele — parte do tesouro da tradição — ser visto também com repulsa. No fim, devido a essa polarização, uma parcela da Igreja pode (e muitas vezes é) alienada de parte significativa do conteúdo da Fé.
Em resumo, a tragédia é clara: denuncia-se um símbolo tradicional como se fosse herético, gerando escândalo e alienando fiéis de componentes centrais da fé, enquanto problemas reais (como a aparente indiferença com as almas dos indígenas) ficam em segundo plano, sem correção ou atenção.
Não se aproveita o aspecto positivo da mensagem carregada pelo símbolo, nem se corrige o mau comportamento; cria-se escândalo e acirram-se os ânimos políticos e a polarização dentro da Igreja.
Pela explanação acima, aos mais atentos, já deve estar clara a relação entre esse caso e os outros dois citados anteriormente, mas para torná-la mais explícita, prossigamos nossa análise com o caso de Dom Adair.
Dom Adair e o comunismo
Antes de entrar no mérito, vamos ao contexto doutrinal e factual.
A priori, não há nada de errado em um bispo — ou qualquer sacerdote católico — fazer uma oração pública contra o comunismo, até porque essa ideologia foi múltiplas vezes diretamente condenada por seu ateísmo e por negar a dignidade da pessoa e da religião (Divini Redemptoris, 1937; ver também Ad Apostolorum Principis, 1958).
Do ponto de vista canônico, o CDC (2021) prevê:
· c. 1374: pena para quem se filia a associações que conspiram contra a Igreja;
· c. 1368: pena para quem, publicamente, blasfema ou excita ódio ou desprezo contra a religião ou a Igreja;
· c. 1373: pena para quem incita ódio ou animosidade contra a Sé Apostólica ou o Ordinário.
Logo, uma oração que denuncia uma ideologia com erros doutrinais — sem endosso partidário — não só é lícita como pode ser oportuna.
Mesmo assim, não faltaram críticas, vindas especialmente de padres ligados à Teologia da Libertação, contra seu superior, Dom Adair.
Examinemos dois exemplos:
O primeiro é um post indireto, publicado por um sacerdote-cantor popular. Em tom insinuativo, ele critica um bispo por, segundo sua leitura, buscar aplausos do povo e “dividir os católicos”, como divide o DIABO, ao dar a entender “em quem votaria ou deixaria de votar”.

Repete o refrão: “O bispo pode, e eu não!”, e qualifica a fala — presumivelmente de Dom Adair, pelo contexto temporal — como imprudente.
O segundo exemplo é um post conjunto entre Pe. Júlio Lancellotti, Cáritas Pelo Mundo e uma fanpage de Dom Hélder Câmara.
A publicação associa a bênção de Dom Adair no show do Frei Gilson a uma citação de São Óscar Romero que, em síntese, adverte: o “anticomunismo” pode ser usado como pretexto para frear a caridade concreta.
O texto ainda invoca o “não tenhais medo”, encorajando quem serve os pobres a não se deixar paralisar por rótulos como “comunista” ou “subversivo”.


Há, nesses dois casos, um misto de injustiça e legitimidade.
Começando pela legitimidade: existe, de fato, em certos ambientes anticomunistas — e mesmo no chamado “conservadorismo” católico — alguma conivência com um estado de coisas anticristão. E quem aponta isso não são apenas teólogos da libertação, mas também vozes internas ao próprio campo conservador.
Há alguns meses, após um grande escândalo envolvendo um influenciador da “bolha católica”, diversas pessoas — entre elas o Pe. José Eduardo — criticaram, em lives e textos, a ostentação e a promoção de padrões de vida particulares, muitas vezes irrealistas, apresentados como se fossem modelo universal de santidade.
Um caso que circulou: uma mulher desabafou que, ao acompanhar esses perfis, passou a sentir culpa e insuficiência por não ter condições financeiras; ela e o marido trabalhavam duro para pagar as despesas básicas e criar o filho único e tinham uma vida que em quase nada era semelhante aos modelos internéticos.
O mesmo se repete com muitos rapazes na casa dos 20: recém-iniciando a vida adulta, sentem-se pressionados a ser milionários, manter rotina ascética impecável, ter pretendente ideal ao matrimônio e exibir físico atlético comparável ao dos influenciadores — padrões frequentemente inacessíveis e, não raro, construídos por curadoria de imagem (filtros, edição, marketing pessoal) e abuso de substâncias anabolizantes.
Isso acontece quando a Sagrada Família é trocada por idealizações midiáticas de “famílias perfeitas”; quando a simplicidade de São Francisco ou a erudição ordenada de São Tomás de Aquino dá lugar à celebração da performance econômica e ao enciclopedismo performático do “intelectual” influencer da moda.
Também é comum ver “gurus” da bolha negando pedidos de oração, desconfiando de atos de caridade e menosprezando ações materiais voltadas ao auxílio dos mais pobres, o que legitima — e muito — algumas críticas vindas da Teologia da Libertação a setores mais “conservadores” da Igreja.
Essas críticas não só aparecem aqui, como foram muito bem evidenciadas em um artigo do meu amigo Davi no Substack.
Nesse meio, em que a aparência de riqueza e de saúde física é vista como sinônimo de vida genuinamente católica e ordenada, normalmente o comunismo é, com razão, criticado; mas os desvios do liberalismo econômico são ignorados ou implicitamente defendidos.
Esse tema mereceria um texto à parte; para nossos fins, basta lembrar que Leão XIII, em Rerum Novarum, denuncia os males do liberalismo econômico e afirma a justiça social como princípio, enquanto Pio XI, em Quadragesimo Anno e Divini Redemptoris, aprofunda a crítica tanto aos excessos do capitalismo quanto ao comunismo como “remédio” que se torna veneno.
Dito isso, coloca-se naturalmente uma questão: o caso concreto de Dom Adair poderia ser enquadrado nesse “catolicismo conservador” performático?
Ao contrário do que sugere a postagem conjunta do Pe. Júlio, Dom Adair, com certa frequência, é visto prestando assistência em trabalhos de caridade, inclusive para pessoas em situação de vulnerabilidade em acampamentos do MST.
Também é injusto sugerir, como foi feito na outra postagem, que a bênção se trata de ato de caráter partidário, visto que Dom Adair sequer menciona nome de partido ou candidato.
Por fim, parece que a animosidade desses dois sacerdotes, embora tenha um núcleo de legitimidade no receio quanto ao chamado “catolicismo conservador”, no caso de Dom Adair decorre antes de desconhecimento dos fatos e até de juízo temerário — presumindo segundas intenções onde havia um gesto lícito e até virtuoso de oração pública.
A tragédia? Denuncia-se um não-problema, enquanto o problema maior de um “liberal-conservadorismo” performático passa abaixo do radar. Gera-se, por viés político-partidário, uma rusga com pastores legítimos da Igreja, ignora-se a ação do verdadeiro inimigo e incorre-se naquilo que devemos evitar: injustiça (julgar sem caridade) e desobediência (submeter a fé a leituras político-ideológicas).
No fundo, trata-se de uma inversão: colocar propósitos políticos acima da religião, diluindo seu significado — algo contra o qual o Magistério, e até mesmo o atual Papa Leão XIV, já nos adverte.
A Quaresma de Frei Gilson como vilã
Por fim, tivemos recentemente o recordista e bem-sucedido rosário do Frei Gilson, assim como a Quaresma de São Miguel, promovida também por grupos como o Instituto Hesed, que admiravelmente conseguiram levar milhões de fiéis a acordar de madrugada para rezar como forma de penitência.
No caso da quaresma de São Miguel, estranhamente, o padre-cantor anteriormente citado decidiu vir a público e, novamente em tom passivo-agressivo, por meio de indiretas, desqualificou a prática, ou práticas semelhantes, como “desatualizadas”.
Em relatório recente de análise de conjuntura, a CNBB criticou a prática por revitalizar as ultrapassadas “espiritualidades de combate”, que, para além de antiquadas, não gerariam mudança social prática — que seria presumivelmente, na visão deles, o que realmente importa.
A ironia? A prática devocional dessa mesma “espiritualidade de combate” tem origem em São Francisco — santo conhecido pela virtude da pobreza e frequentemente utilizado para propagandear as iniciativas socioambientais da CNBB e do clero ligado à Teologia da Libertação.
Se, por um lado, devocionalismos sem caridade devem ser corrigidos, por outro, não convém oprimir a piedade popular com suspeitas genéricas. A via católica une oração e obras (Tg 2,14–26), evitando tanto o moralismo ativista quanto a espiritualidade desencarnada.
Aqui, novamente, ocorreu mais um ataque que erra o alvo, produz polêmica e polarização política, não corrige o mau comportamento e divide ainda mais a Igreja.
Não poderia o ânimo da “espiritualidade de combate” ser usado por aqueles que se importam genuína e caridosamente com as desigualdades, abusos e excessos do capitalismo, para combater tais abusos e excessos?
Não poderia a energia das práticas devocionais ser utilizada para conclamar os fiéis a orarem pelos necessitados? Com orações que até alimentariam o fervor nas ações de caridade?
Sim, poderia! Assim como as críticas ao anticomunismo poderiam ser empregadas para apontar aspectos realmente problemáticos do catolicismo dito conservador, e a Cruz Amazônica poderia ser aproveitada como símbolo para despertar, nos que simpatizam com a espiritualidade voltada à opção preferencial pelos pobres e ao cuidado da casa comum, aspectos da fé que costumam ignorar.
Nos três casos — Cruz Amazônica, oração anticomunista de um bispo e as Quaresmas do Frei Gilson— a tentação é a mesma: deixar que disputas ideológicas esvaziem o foco cristológico e rompam a caridade.
A Igreja não canoniza partidos nem slogans; ela proclama Jesus Cristo, crucificado e ressuscitado, único Redentor (CIC 616–618) e, a partir d’Ele, discerne, corrige, purifica e fecunda símbolos, pastorais e devoções.