A Perversão da Bicicleta...
Certo dia, saía do escritório, na nobre São Paulo, para comprar um lanche no mercadinho próximo e decidi enviar um áudio para um colega no celular, quando fui surpreendido. Dois jovens vieram pelas minhas costas de bicicleta, um pelo meu lado direito, outro pelo meu lado esquerdo, conversando sobre um assunto que eu ouvia, mas a apreensão não me deixava escutar.
Rapidamente, com o áudio mal terminado, guardei o telefone no bolso, e um deles disse, impaciente:
— Calma, meu jovem, ninguém vai mexer nos seus pertences, não! A gente só quer entrar ali na garagem.
Eu disse, como quem estivesse calmo:
— Tranquilo, também estou indo ao mercado!
Pensando bem, isso não é algo que alguém calmo diria. E, pensando ainda melhor, uma pessoa normal, em situação normal, jamais se assustaria de graça com dois ciclistas, mas isso é só porque a bicicleta faz muita diferença. Uma outra anedota pessoal, essa sem bicicletas deve deixar isso mais claro.
Em outro dia, na mesma região, voltava da missa sozinho, em uma manhã de domingo, quando veio ao meu encontro um senhor magro, com roupas rasgadas e muito sujo, portando uma novíssima e limpíssima bolsa rosa.
O senhor me pediu dinheiro. Eu não tinha, mas tinha um cartão com acesso à conta bancária que continha o restante do meu salário. Prontamente, ofereci-me para pagar-lhe um salgado no OXXO, aberto logo à frente. (Para pagar salgado a prováveis ladrões após a missa dominical, esses mercados servem.)
Chegando lá, perguntei o que ele queria, e ele respondeu:
— Salsicha!
Pedi uma salsicha à caixa, e ele interveio:
— Quero uma Coca!
Fui pegar a Coca, e ele, indeciso, interrompeu:
— Tem vinho?
Nesse momento, a caixa, que já não sabia se pegava salsicha ou vinho, olhou para mim. Eu assenti com a cabeça, pensando: “Vinho é incapaz de deixar esse sujeito embriagado e pode ser o que ele precisa mesmo nesta manhã de domingo”.
Ela então ofereceu o vinho mais barato, e ele respondeu:
— Esse vinho é seco?
— Sim, senhor, é se-
— Detesto vinho seco — interrompeu o talvez ladrão.
O silêncio tomou conta do ambiente, até que ele perguntou novamente:
— É seco?
— Sim, senhor — respondeu a caixa.
— Então pode pôr na sacola!
A caixa olhou para mim, confusa. Eu dei de ombros, e o ladrão potencial saiu de lá com uma Pepsi de 2 litros (não tinha Coca) e um vinho de que não gostava. Pedi a ele permissão para rezar uma Ave-Maria; ele aceitou e retribuiu rezando uma espécie de remix ou mash-up da oração de São Miguel com o Pai-Nosso, o “Santo Anjo do Senhor” e a doxologia menor. Gozado: um possível ladrão, provavelmente alcoólatra e certamente católico.
Separei-me do meu novo amigo refletindo a respeito dos mistérios da divina providência. Pensava no estado mental daquele homem: estava completamente alterado, provavelmente cometia crimes e Deus, ainda assim, o mantinha vivo. Vivo para quê? Que bens poderia Deus tirar daquela vida?
São perguntas um pouco tolas, dado que não só a vida é um bem em si, como que dessa interação saíram alguns bens muito óbvios: ele ganhou um vinho, uma Pepsi e uma oração; já eu — pelo custo módico de pouco mais de R$ 30,00 (era um vinho muito vagabundo) — ganhei várias orações e a graça de ter realizado um ato de caridade. E a caridade, oras, é o que fica.
Caridade: isso é o que me faltou quando avistei os homens em suas bicicletas próximos ao mercado, mas não me faltou quando vi meu amigo com “sua” bolsa rosa. Gozada a diferença que faz uma bicicleta.
Antes, ver uma bicicleta me lembrava meu pai, que me ensinou a andar, e o tombo que levei quando, querendo anunciar-lhe a conquista, olhei para trás e não vi a lixeira da qual me aproximava. Houve um tempo em que associávamos bicicletas a crianças, a passeios em família; hoje, porém, ao ver um ciclista, pensamos no roubo.
E os roubos nos fazem olhar para um ser humano, que sempre foi associado à pura e simples humanidade, e associá-lo à possibilidade de ameaça.
E assim os ladrões, depois de roubar de alguns indivíduos os bens materiais, roubam de toda a sociedade também o seu bem mais precioso: a caridade. E, se desta vida só levamos a caridade, talvez tenham eles nos roubado o único bem que faz valer algo essa tal vida.